Quarta-feira, 22 de julho de 2026 - Por Gabriela Andrietta
XII Seminário Nacional do Centro de Memória debate democracia, equidade, história e memória
Mesa de abertura do XII Seminário Nacional do Centro de Memória
Teve início nesta quarta-feira (22) o XII Seminário Nacional do Centro de Memória-Unicamp (CMU). Com programação presencial até o dia 24 de julho, o evento reúne professores, pesquisadores, estudantes e profissionais de diferentes áreas em torno do tema "Diálogos com o futuro: democracia, equidade, história e memória".
A cerimônia de abertura contou com a participação do professor Fernando Antônio Coelho, coordenador-geral da Universidade, representando o reitor Paulo Cesar Montagner; do pesquisador Marcus Alexandre Finzi Corat, coordenador adjunto da Coordenadoria de Centros e Núcleos Interdisciplinares de Pesquisa (Cocen); do professor André Luiz Paulilo, assessor de pesquisa do CMU e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Educação da Faculdade de Educação; e da pesquisadora Maria Sílvia Duarte Hadler, coordenadora do Centro de Memória-Unicamp.
Em sua fala, Maria Sílvia Duarte Hadler lembrou que a 12ª edição do seminário coincide com os 40 anos do CMU, instituição que se consolidou como espaço de comunicação, pesquisa e observação atenta às dinâmicas socioculturais brasileiras. Segundo ela, o encontro busca abrir espaço para refletir sobre as relações entre passado, presente e futuro, e sobre quais futuros a sociedade está construindo. A coordenadora destacou a democracia como eixo central diante da atual conjuntura brasileira, o que implica aprofundar o debate sobre desigualdades sociais e o compromisso com práticas mais inclusivas, capazes de abrigar solidariedade, tolerância e respeito às diferenças e aos direitos de cidadania.
André Luiz Paulilo situou o encontro como uma oportunidade de discutir a memória a partir de uma perspectiva democrática e plural, reunindo pesquisas e visões de mundo distintas e reafirmando o compromisso com a pesquisa e o patrimônio cultural.
Marcus Corat afirmou que o tema do seminário não poderia ser mais oportuno diante de um tempo marcado por transformações aceleradas que desafiam a capacidade de compreender o presente e projetar o futuro. Para o pesquisador, preservar referências documentais é essencial para orientar a sociedade em meio às incertezas contemporâneas, uma vez que não existe democracia sólida sem memória institucional, nem equidade sem reconhecer as experiências, as desigualdades e as vozes que foram historicamente invisibilizadas. Corat observou ainda que, embora nunca se tenha produzido tantos registros sobre a realidade, convive-se hoje com formas cada vez mais sofisticadas de desinformação, manipulação de conteúdos e apagamento histórico, o que torna a preservação de documentos, a garantia de sua autenticidade e o acesso público aos acervos condições fundamentais para a pesquisa científica, a memória coletiva e o fortalecimento das instituições democráticas.
Fernando Antônio Coelho lembrou que a Unicamp completa 60 anos e o CMU, 40, e defendeu que discutir democracia, equidade e minorias é fundamental no momento sombrio vivido pelo mundo . Para ele, é preciso preservar momentos de reflexão sobre processos fundamentais da vida em civilidade, sobre a capacidade de conviver com as diferenças e sobre a importância da diversidade. Discutir democracia, equidade, história e memória, afirmou, é fundamental para que o ser humano possa manifestar suas vontades e conviver de forma adequada com a diversidade e pluralidade de ideias, sem perseguição ou prisão. Coelho descreveu o evento como muito importante diante do momento político do país e do mundo.
Memória coletiva como direito social
A conferência de abertura do seminário foi ministrada pelo professor Mário Augusto Medeiros da Silva, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, que propôs uma reflexão sobre a memória coletiva como direito social fundamental, ressaltando seu papel na promoção da cidadania, da justiça social e do fortalecimento da democracia.
Ao percorrer a trajetória dos estudos sobre memória social, o pesquisador destacou que ela não deve ser compreendida apenas como dimensão individual, mas como construção coletiva, profundamente influenciada pelas relações de poder. Segundo ele, a memória coletiva resulta de processos de seleção que determinam quais histórias serão preservadas e quais serão esquecidas — processos que, historicamente, privilegiaram narrativas masculinas, brancas, patriarcais e vinculadas às elites, enquanto experiências de populações negras, indígenas, mulheres e outros grupos historicamente marginalizados permanecem invisibilizadas.
Ao longo da conferência, o professor relacionou memória, direitos humanos e democracia, defendendo que a preservação documental deve ser compreendida como política pública de reparação histórica. Para ele, arquivos, museus e centros de memória têm responsabilidade social na ampliação das narrativas históricas, por meio da incorporação de acervos capazes de representar a diversidade da sociedade brasileira.
O professor apresentou o projeto AfroMemória, desenvolvido no Arquivo Edgard Leuenroth (AEL) da Unicamp, que reúne acervos de organizações e lideranças do movimento negro contemporâneo, preservando documentos produzidos pelos próprios movimentos sociais e garantindo seu acesso a futuras gerações. Citou também a incorporação do acervo do Centro de Informação da Mulher (CIM) ao AEL, que amplia a preservação da memória dos movimentos feministas latino-americanos — iniciativas que, segundo ele, demonstram o papel estratégico dos arquivos públicos na promoção da igualdade racial, de gênero e dos direitos humanos.
No final da sua fala, Medeiros defendeu que preservar a memória significa assegurar direitos, e reafirmou o dever coletivo de proteger as histórias daqueles que, ao longo do tempo, foram silenciados ou excluídos dos registros oficiais.
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