Atlas revela alterações na distribuição espacial na RMC

Publicação apura que áreas de concentração de famílias de baixa renda ficaram mais heterogêneas e que as que abrigam famílias de alta renda tornaram-se mais homogêneas


Por Manuel Alves Filho, Jornal da Unicamp
04/09/2017

N os anos 2000, a Região Metropolitana de Campinas (RMC) apresentou um crescimento demográfico inferior ao da década anterior – 1,8% ante 2,5%. A despeito do tímido aumento da população, a RMC registrou uma importante mudança na sua distribuição espacial interna no período. As áreas de concentração de famílias de baixa renda ficaram mais heterogêneas, ao passo que as que abrigam famílias de alta renda tornaram-se mais homogêneas. A constatação está registrada no atlas Campinas metropolitana: Diversidades socioespaciais na virada para o século XXI, organizado pelos pesquisadores José Marcos Pinto da Cunha e Camila Areias Falcão, ambos do Núcleo de Estudos de População (Nepo) da Unicamp. O trabalho, publicado em versão eletrônica, contou com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

De acordo com Cunha, que também é professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), o atlas foi elaborado a partir de dados fornecidos pelos censos de 2000 e 2010. A publicação atualiza edição anterior, lançada em 2006 e que estava baseada em informações das décadas de 80 e 90. No período decorrido entre os dois trabalhos, observa o pesquisador do Nepo, ocorreram transformações importantes no interior da RMC. “A primeira constatação é de que a região está crescendo cada vez menos em termos demográficos. Isso acontece não somente por causa da queda da fecundidade, o que se observa no restante do Brasil, mas também por causa da redução do volume e intensidade da migração. Em outras palavras, a região não se mostra tão atrativa a pessoas de outras regiões e estados quanto em épocas anteriores, principalmente nas décadas de 70 e 80”, aponta.

Com a queda do crescimento demográfico, prossegue o pesquisador, seria de se esperar que a distribuição espacial interna da região ficasse estabilizada, mas não foi isso o que aconteceu. “Nós verificamos mudanças importantes nesse aspecto. De um lado, houve um crescimento significativo do que nós denominamos de Cordilheira da Pobreza, que é composta pelas periferias de baixa renda, como Hortolândia, Sumaré e Monte Mor. Um aspecto que observamos em relação a essas áreas é que elas sofreram um processo de heterogeneização. Elas também passaram a ser ocupadas por famílias de média renda, o que a gente não identificava com tanta clareza nas décadas de 80 e 90”.

Os fatores que concorreram para essa transformação, conforme Cunha, têm sido analisados em outros estudos elaborados pelo seu grupo de pesquisa no Nepo. Mas o pesquisador adianta uma hipótese. “Ao longo dos últimos anos, nós assistimos a novas formas de ocupação do espaço urbano, como a ampliação do número de condomínios horizontais e verticais voltados para famílias de média renda. Recentemente, tive notícia de que em Monte Mor estão sendo construídos condomínios fechados. Outro aspecto é que, com o envelhecimento da população, ocorre o aumento do nível socioeconômico das pessoas, favorecendo desse modo essa maior heterogeneidade”.

Já em relação à denominada Cordilheira da Riqueza, aquela com grande concentração de população de alta renda, que ocupa uma faixa que se estende desde Vinhedo até Paulínia, passando por Campinas e Jaguariúna, aconteceu justamente o contrário, isto é, houve um processo de homogeneização. Dito de outro modo, tornou-se ainda mais elitizada. “Essa área é composta por terras que pertenciam às antigas fazendas de café. Com a perda da função agrícola, elas se tornaram reservas de valor. Nos últimos anos, essas áreas foram loteadas e receberam novos condomínios de alto padrão, que vieram se juntar aos já existentes. Embora não exista cidade totalmente homogênea, essa Cordilheira da Riqueza tem concentrado população com esse perfil”, assinala o coordenador do atlas.

Pêndulo

Questões como essas, pondera Cunha, reafirmam a necessidade de os gestores públicos pensarem o espaço urbano de forma regional. Uma pessoa que mora em Sumaré ou Valinhos, diz, é na verdade um cidadão metropolitano. “Esse cidadão metropolitano vive numa cidade, trabalha ou estuda em outra e consome cultura e entretenimento numa terceira. Para se ter uma ideia, cerca de 40% da população economicamente ativa de Hortolândia trabalha em Campinas. Isso obriga esse contingente a fazer grandes deslocamentos diários, o que traz reflexo para o trânsito, para o ambiente e para a própria qualidade de vida”, considera.

O deslocamento citado pelo pesquisador do Nepo é denominado tecnicamente de movimento pendular. De acordo com os dados do atlas, esse movimento passou de 176 mil pessoas por dia em 2000 para 312 mil em 2010, número que equivale à população de Franca, localizada no interior de São Paulo. “Esse fenômeno demonstra claramente que o espaço de vida do morador da RMC é muito mais amplo que o município onde ele vive. Daí a necessidade de dotar a região serviços e equipamentos públicos que possam atender com qualidade a esse cidadão metropolitano”, assinala Cunha.

Na opinião do organizador ao atlas, esse exercício de observar o espaço urbano a partir de uma lupa regional já vem sendo feito na RMC, principalmente a partir das atividades promovidas pela Agência Metropolitana de Campinas (Agemcamp), autarquia estadual vinculada à Secretaria da Casa Civil. A missão da Agemcamp é integrar a organização, o planejamento e a execução das funções públicas de interesse comum na Região Metropolitana de Campinas, composta por 20 municípios [Americana, Artur Nogueira, Campinas, Cosmópolis, Engenheiro Coelho, Holambra, Hortolândia, Indaiatuba, Itatiba, Jaguariúna, Monte Mor, Morungaba, Nova Odessa, Paulínia, Pedreira, Santa Bárbara D’Oeste, Santo Antônio de Posse, Sumaré, Valinhos e Vinhedo], onde vivem aproximadamente 2,8 milhões de habitantes.

Cunha entende que alguns temas estão sendo mais bem encaminhados que outros no âmbito regional, mas de maneira geral os prefeitos têm percebido a necessidade da busca por saídas conjuntas para problemas que afetam o espaço metropolitano, como a questão da saúde e do tratamento de resíduos sólidos, para ficar em somente dois exemplos. “Aos poucos, estamos caminhando para o que pode ser, no futuro, uma governança metropolitana. Nossa expectativa é que o atlas contribua para esse avanço”, pontua o pesquisador.