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quarta-feira, 28/11/2018   Por Derivaldo Reis de Sousa

CinePagu - Desafios éticos contemporâneos: entre desejos, afetos e assédios

O evento acontecerá dias 27 e 28 de novembro
Após uma série de denúncias, mobilizações a alguns processos instaurados, em setembro de 2017, por portaria do reitor Marcelo Knobel, criou-se um GT - Grupo de trabalhos estabelecido pelas Portarias GR-83, 84 e 85/2017 para apresentar proposta de política de combate à discriminação baseada em gênero e/ou sexualidade e violência sexual na Universidade Estadual de Campinas. O GT é presidido por Ana Maria Fonseca de Almeida, professora da Faculdade de Educação. Este foi um importante e decisivo passo institucional em função da disseminação de debates e de estratégias claras de coibição da discriminação sexual e/ou de gênero e violência sexual. O CinePagu, um projeto de exibição e debate de filmes com temáticas ligadas às pesquisas e atividades do Núcleo de Estudos de Gênero da Unicamp, interligado com professores dos Institutos de Arte e do Departamento de História, propõe este evento como uma contribuição acadêmico/cultural sintonizada com as proposições do GT. No nosso entender, este evento se justifica por ser mais um importante instrumento de sensibilização e de aprofundamento dos debates já iniciados pelo GT, só que com foco nas produções audiovisuais contemporâneas, ou seja, na cultura audiovisual a qual dissemina imaginários que ora reiteram, ora questionam os padrões normativos sexistas que predominam nas relações entre os gêneros na maioria dos espaços públicos e privados da vida contemporânea. A proposta não pretende substituir nenhuma das ações do GT, pelo contrário, vem somar parcerias no sentido de ecoar as preocupações e políticas de combate às violências de gênero e sexualidade, envolvendo a comunidade acadêmica da cidade de Campinas nesta longa empreitada de mudança de hábitos, atitudes e sentimentos. Trata-se de um assunto de abrangência internacional, tanto no âmbito institucional (de várias universidades e de políticas de governos de vários países) quanto de movimentos sociais(de mulheres, lgbtI, negras/os, decolonial) no Brasil e América Latina. A visibilidade do tema em filmes nacionais e internacionais dos últimos dez anos é mais uma evidência de que se trata de uma questão de alta relevância para a convivência social e para a própria noção de espaço público. Precisamos entender que há pessoas em condições de maior vulnerabilidade que outras em termos de assédios e violências em função de ser ou não portadoras de signos de feminilidade, lidos e percebidos ao mesmo tempo e contraditoriamente como fragilidade e provocação (sedução). A feminilidade ainda é um grande alvo de sutis e explícitas violências sejam de mulheres trans, cis, negras e/ou lésbicas. No quesito assédio e violência, estudos apontam que nem mesmo as mulheres que se conformam em perfis normativos de corporalidade, beleza, moralidade e religiosidade estão livres dos efeitos perversos de uma gestão da vida pautada pela naturalização da injúria e do desrespeito que se baseia nas hierarquias de poder dos cargos, dinheiro, cor e gênero. Os perfis montados pelos estudos e observatórios da desigualdade e das violências são unânimes em destacar que há alvos e lugares privilegiados (pessoas em posição submissa seja por critérios hierárquicos, financeiros, profissionais, étnicos, portanto mais vulneráveis) embora ninguém esteja a salvo, nem mesmo entre familiares e pessoas do círculo íntimo de amizades. Por partir de uma compreensão não sectária, que remeta a uma infantilização da guerra dos sexos (homens X mulheres), o evento se propõe a pensar as variações e os muitos silenciamentos em torno da questão. Além dos depoimentos que remetem a episódios mais ordinários e corriqueiros dos tipos e variações dos abusos e assédios, o evento irá abordar ainda tópicos mais incomuns, como por exemplo os depoimentos de vários homens negros que sofreram assédio e/ou abusos sexuais em suas infâncias e juventudes. Outro tema é a questão do sequestro de meninas (adolescentes) para fins de arma de guerra, ou seja, os estupros que ocorrem em situações de conflitos armados que se utilizam dos abusos de poder para subjugar sexualmente mulheres, jovens e crianças.

As mesas de debate, para além das projeções fílmicas, se justificam por permitirem avançar no processo de compreensão das transformações históricas pelas quais estamos passando, abrangendo reflexões de cunho filosófico que problematizam as saídas midiáticas de espetacularização das intimidades e denúncias e exposições dos “agressores”, num jogo de enunciados/enunciadores que remete ora para importantes avanços, ora para essencialismos conservadores.

Enfim, esta edição especial do CinePagu (projeto que existe na Unicamp desde 2009) une três importantes áreas: cinema(arte), pesquisa/ensino e o cultivo de uma cidadania plena e democrática, por problematizar este nó central (desejo/assédio) nas relações de gênero.

Fonte: Pagu



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