Quinta-feira, 14 de setembro de 2017 - Por Gabriela Villen
Fronteira, gênero e poder foram tema de seminário internacional na Unicamp
Fronteira, gênero e poder foram tema de seminário internacional na Unicamp
“Quando você está em Tabatinga, no alto Solimões, você está na fronteira. Você não está na fronteira apenas para atravessá-la, você está habitando a fronteira. Você compra aguardente do lado colombiano, come ceviche do lado peruano e vai casar com um brasileiro. Toda vida circula. É uma cidade que se construiu e se teceu junto, na fronteira Brasil-Colômbia, com um rio que tem uma ilha peruana. É absolutamente fascinante”. Para o antropólogo José Miguel Nieto Olivar, compreender como são elaboradas as relações de gênero em territórios transfronteiriços, como Tabatinga, é um importante desafio para academia e deve ser encarado interdisciplinarmente. O pesquisador do Núcleo de Estudos de Gênero (Pagu) foi o responsável pela organização do Seminário Internacional Gênero e Territórios de Fronteira que aconteceu esta semana (12 a 14), na Unicamp. O evento contou com a participação de pesquisadores e estudantes dos EUA, México, Colômbia, Canadá, além de alguns dos principais centros de pesquisa do Brasil. “Pouca atenção tem sido dada aos espaços sociais e geográficos ao redor das linhas fronteiriças. Buscamos compreender a fronteira não como uma linha que você atravesse para ir de um país para o outro, mas como um espaço que você habita. Certas perspectivas de gênero têm a ver com a produção desses territórios, como foram construídos e são pensados politicamente”, explicou Olivar, organizador do evento. Segundo o pesquisador, um dos objetivos é estimular o desenvolvimento de estudos de gênero a partir de perspectivas periféricas e investigar a maneira como essas populações pensam as relações sociais, o dinheiro, o Estado, que é diferente dos centros urbanos. “Para mulheres brancas urbanas o casamento vinculado ao amor é muito importante. Há grupos sociais onde isso é praticamente inexistente ou ocupa outro lugar”, exemplifica Olivar. Outro aspecto apontado pelo pesquisador foi o conceito de delicadeza e fragilidade associado ao feminino. “Uma mulher amazônica é infinitamente mais forte que qualquer homem desse contexto aqui e isso não significa que é menos feminina”, explicou. A fronteira internacional coloca em cheque, ainda, as ideias de gênero associadas às identidades nacionais. Características associadas à mulher brasileira ou à peruana em espaços transfronteiriços não se sustentam. “Fica evidente que são construções sociais que não fazem parte de uma verdade essencial de seus corpos”, comentou Olivar. Violência Outro assunto importante que perpassa as pesquisas sobre gênero e fronteira é a violência sexual. Práticas de estupro e assassinato de meninas indígenas adolescentes são parte da vida da população de São Gabriel da Cachoeira no Alto Rio Negro, onde Olivar desenvolveu sua pesquisa de pós-doutorado. “Há uma realidade muito violenta e a maneira como acontece é muito particular da história de como essa fronteira foi produzida, como se exerce o poder e como o silêncio opera”, relatou o pesquisador. Olivar destacou como o processo de colonização na Amazônia operou no território e nos corpos das mulheres locais. “As mulheres são o corpo da colonização. Procuramos entender como é ser mulher nessa história, como é ser mulher quando você é o corpo através do qual a civilização opera”, ressaltou.

Fonte: Portal da Unicamp

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