Segunda-feira, 21 de março de 2016 - Por Luiz Sugimoto
O pêndulo demográfico
Tese revela que a sede e o entorno da Região Metropolitana de São Paulo perdem população e atraem cada vez menos migrantes de outros Estados
O pêndulo demográfico
Na sequência, vistas parciais das cidades de São Paulo, Mogi das Cruzes, Taboão da Serra e Barueri: novas configurações demográficas na RMSP
A capital paulista permanece como polo dominante da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), mas vem crescendo menos e perdendo população para municípios do seu entorno, enquanto Mogi das Cruzes figura como segundo polo e Cotia surge como terceira força graças à Granja Viana, sua indústria e serviços. Ao mesmo tempo, nas últimas três décadas, a sede e o entorno da RMSP perdem população para o interior, bem como o poder de atração de migrantes de outros Estados: se antes, entre 1960 e 1980, a região apresentava um saldo migratório de aproximadamente 2 milhões de habitantes (entre saídas e entradas) por década, houve uma perda de quase 300 mil pessoas na década de 1980 e de outras 300 mil na década de 2000-2010, com tendência de o saldo ser zerado ou mesmo negativado nesta década até 2020. Estes são alguns resultados de um minucioso estudo sobre a mobilidade espacial da população da RMSP, envolvendo os conceitos de espaço de vida, mobilidade residencial e migração, e que mostra as transformações demográficas ocorridas na metrópole desde 1872 (data do primeiro censo), com ênfase para o período de 1980 a 2010. Trata-se da tese de doutorado do estatístico Aparecido Soares da Cunha, analista de Planejamento, Gestão e Infraestrutura em Informações Geográficas e Estatísticas do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Ele foi orientado pela professora Rosana Baeninger, no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH). Na opinião de Aparecido Cunha, o seu trabalho também contribui com uma nova perspectiva de se observar a mobilidade da população e redefinir o conceito de migração. “Criamos uma metodologia de análise a partir dos ‘espaços de vida’, assim chamados por Daniel Courgeau por se basearem nas atividades e nos espaços que os indivíduos ocupam em seu dia a dia, como para trabalho, estudo ou qualquer outra atividade rotineira, seja dentro do município ou envolvendo outros além do residencial. Essas atividades variam conforme a idade: uma criança, sem autonomia para se deslocar, tem um espaço de vida mais restrito, mas à medida que vai crescendo passa a brincar no condomínio, visitar o pediatra, ir à escola, visitar a avó; o espaço de vida se amplia para o adolescente, jovem e adulto, e volta a diminuir para o idoso.” O autor afirma que sua preocupação maior na tese foi verificar o que acontece em termos de mobilidade da população dentro destes espaços de vida, diferenciando os conceitos de migração e de mobilidade residencial. “Pelo conceito tradicional, que consta no manual da ONU, migração é toda mudança residencial de uma área administrativa para outra. Na tese, coloco a migração como um processo mais difícil e traumático para a população, pois a pessoa sai do seu espaço de vida e vai para outro espaço de vida desconhecido, ou seja, não experimentado, onde precisará se adaptar e interagir com o novo local. Na mobilidade residencial, se a pessoa mora em São Paulo e trabalha em Guarulhos, e decide mudar para a segunda cidade, o deslocamento se dá dentro do ambiente que ele já vivencia e conhece, isto é, dentro do seu espaço de vida. Observou-se que mais de 95% das mudanças de residência dentro da RMSP ocorrem dentro do mesmo espaço de vida, ocorrendo pouca migração.” Cunha concentrou-se nos dados dos censos demográficos sobre movimentos pendulares para criação de espaços de vida, para trabalho ou estudo, ainda que este espaço contemple uma gama maior de atividades do cotidiano e envolva também os deslocamentos ao médico, igreja, casa de parentes, lazer, compras, etc. “Na Pesquisa Origem-Destino da Companhia do Metropolitano de São Paulo (Metrô), identificamos que quase 80% dos movimentos pendulares na RMSP ocorrem para trabalho ou estudo, e pouco mais de 20% para outras atividades que não constam nos censos. Com os dados censitários e a partir dos movimentos pendulares registrados por um indivíduo de uma determinada localidade (espaço de vida individual), fomos construindo os espaços de vida da população de cada um dos 39 municípios da região (espaço de vida coletivo). Delimitados estes espaços, observou-se a mobilidade espacial da população por município, verificando se ocorriam e predominavam a migração ou a mobilidade residencial.” O pesquisador apresenta dados de 2014 do IBGE apontando que os 39 municípios da Região Metropolitana de São Paulo somam 20,9 milhões de habitantes ocupando uma área de 7,9 mil km2, o que equivale a aproximadamente 10% da população do Brasil e quase 50% do estado de São Paulo. “Fiz um apanhado histórico dos desmembramentos municipais desde 1548, quando da fundação da Vila de São Paulo, detalhando os processos de desenvolvimento econômico e os deslocamentos populacionais para mostrar os municípios que se tornaram centrais, especialmente São Paulo e Mogi das Cruzes, embriões da RMSP. Avalio o crescimento demográfico e a importância da migração na região, sobretudo até o ano de 1980, a partir do qual vemos uma queda significativa do crescimento da Capital em relação às cidades do entorno metropolitano.” De acordo com Aparecido Cunha, o espaço de vida de uma população pode ser contíguo ou não, como no caso de um município dependente de outro a 30 km de distância, sem interagir com os municípios do seu entorno. “São Paulo, ao contrário, interage com todos os demais 38 municípios, sendo o único com esta característica; ao passo que Santana de Parnaíba e Juquitiba interagem com poucas cidades da região. Isso depende de componentes como o nível de desenvolvimento econômico e número de habitantes em idade economicamente ativa. Há o caso de Barueri, que recebe diariamente mais população de outros municípios do que a própria população ativa, sendo também a única com esta característica na RMSP, o que se deve à alta concentração de emprego em empresas atraídas por incentivos fiscais.” Entre outras variáveis observadas pelo estatístico está o emprego ligado a serviços em residências de grandes condomínios desse município, que acaba atraindo muitas pessoas do entorno. “As pessoas já não se deslocam em grande número para locais muito distantes, o que é uma mudança do século passado para este. Da mesma forma, as chamadas cidades dormitórios perderam esta característica tão marcante na década de 1970 – Taboão da Serra e Itapecerica da Serra hoje possuem atividade econômica e também empregam, apesar de um excedente populacional que busca trabalho em outros municípios. E Cotia, Barueri e Mogi das Cruzes, antes de vocação agrícola, atraem uma população importante para residência e emprego. Tranco na migração O autor da tese fez um levantamento da mobilidade espacial da população do Brasil, considerando o período de 1980 a 2010, observando as migrações inter-regionais, intrarregionais, intraestaduais e interestaduais, oferecendo assim um painel nacional de fundo e um olhar local, intrametropolitano. “Apesar das mudanças ocorridas nos processos migratórios, a RMSP ainda possui alta concentração populacional e continua atraindo muita gente; a questão é que, ao mesmo tempo, expulsa muita gente. É alta a rotatividade, pois tanto a sede como as cidades do entorno não conseguem reter a população. Há uma tendência de transformação do componente migratório na região, em função da queda da migração nacional, intrarregional e mesmo intraestadual – as pessoas estão indo mais intensamente para o interior do estado ou retornando ao estado de origem.” Cunha afirma que esta migração de retorno é a única que permanece em ascensão ao longo das últimas três ou quatro décadas. “O emprego tornou-se mais rarefeito e o processo migratório mais curto, em que o indivíduo vem e logo retorna para o lugar de origem por não conseguir uma colocação com tanta facilidade como ocorria entre os anos 60 e 80. Em relação ao interior de São Paulo, o resultado da migração é negativo para a RMSP, ou seja, o número de saídas é maior que o de entradas, embora o volume ainda seja bem acentuado. Na verdade, o saldo é positivo apenas em relação ao Nordeste.” Uma tabela elaborada pelo pesquisador mostra um saldo migratório de 2,2 milhões de pessoas na década de 70, com uma perda de 274 mil na década de 80, um ganho de 219 mil na década de 80 e nova perda de 299 mil nos anos 2000. “É a partir de 1980 que este componente ficou negativo, como se dessem um tranco no crescimento migratório. A explicação está exatamente na diminuição da migração interestadual, que era o fluxo preponderante, e na reversão, com pessoas voltando a seus estados de origem e ao interior de São Paulo, sem contar com a influência das transformações demográficas pelas quais o Brasil passou recentemente. A tendência é que este saldo seja zerado e até se torne negativo nesta década até 2020. Se o saldo geral ainda se mantém positivo, é apenas por força da região nordestina.” Espaços heterogêneos No capítulo que julga central na tese, Aparecido Cunha faz uma análise detalhada dos espaços de vida da população na RMSP nesta última década de 2000 a 2010, mostrando como a população se desloca, segundo a idade média, sexo e origem e destino. “Há muita heterogeneidade na configuração dos espaços de vida da população, sendo que o município de São Paulo não tem a primazia em todos os espaços, mas ainda é o polo dominante na região. Existem vários polos sub-regionais, como Mogi das Cruzes, que aparece como segundo polo em importância. Para quase metade das cidades, o espaço de vida da população é policêntrico. São Paulo é a única que envolve todas as demais municipalidades, criando realmente um espaço de vida coletivo em sua essência.” O pesquisador acrescenta que Cotia, Mogi das Cruzes e a Capital aparecem como municípios primazes, enquanto vários outros (e suas respectivas populações) dependem acentuadamente dos processos econômicos, infraestrutura e empregos que existem nos três primeiros e em outros seis importantes municípios da região. “Uma constatação importante é que nove municípios concentram 79% dos fluxos intrametropolitanos, o que chamei de centralidades da mobilidade regional: São Paulo, Osasco, Guarulhos, Mogi das Cruzes, Santo André, São Bernardo do Campo, Cotia, Barueri e Santana do Parnaíba. Os demais têm um componente econômico mais rarefeito ou insuficiente, com a população se direcionando para os municípios centrais.” Em suas considerações finais, Aparecido Cunha ressalta que a operacionalização (criação) dos espaços de vida é uma ferramenta para compreender a mobilidade espacial da população sob uma nova perspectiva e com um potencial analítico interessante. “O espaço de vida é uma regionalização social, do cotidiano, das atividades rotineiras e repetitivas da população. A tese ainda abre uma agenda de pesquisas futuras, como por exemplo, buscando avaliar os espaços de vida levando em conta as famílias e os arranjos familiares; tomando como referência as migrações internacionais e a mobilidade pendular internacional; ou analisando a composição dos empregos por espaços de vida e seus diferenciais. O estudo permitiu conhecer a dinâmica socioespacial da Metrópole no início do século 21.”
Publicação Tese: “A migração na Região Metropolitana de São Paulo e os espaços da mobilidade intrametropolitana – 1980/2010” Autor: Aparecido Soares da Cunha Orientadora: Rosana Baeninger Unidade: Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH)

Fonte: Jornal da Unicamp

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