Quinta-feira, 24 de setembro de 2020 - Por Bianca Bosso (Labjor/Nudecri)
“Temos que resistir”: Carlos Vogt fala sobre os desafios atuais para a ciência e divulgação científica
“Temos que resistir”: Carlos Vogt fala sobre os desafios atuais para a ciência e divulgação científica
Carlos Vogt recebeu título de Pesquisador Emérito, do CNPq. Foto:Antoninho Perri – SEC – Unicamp
Coordenador do Labjor-Nudecri – Núcleo de pesquisa do sistema Cocen/UNICAMP – destaca ainda a honra de receber o título de Pesquisador Emérito CNPq 2020 no mesmo evento que vai conceder o Prêmio Almirante Álvaro Alberto de 2020 para a professora Helena Nader.
Em meio à crise sanitária, ambiental e econômica instaurada no Brasil, reconhecer o papel da ciência e dos cientistas para superar tais percalços torna-se essencial. É neste cenário que o professor e pesquisador Carlos Vogt, doutor em Ciências e um dos principais nomes no cenário da divulgação científica nacional, foi escolhido para receber o prêmio de Pesquisador Emérito do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) em 2020. A homenagem será concedida em reconhecimento ao trabalho de Vogt junto à Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) desde os anos 1960, quando ingressou na Academia. No mesmo evento, que foi transmitido ao vivo pelo YouTube, a professora Helena Bonciani Nader recebeu o Prêmio Almirante Álvaro Alberto de 2020, concedido pelo CNPq em parceria com o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, a Fundação Conrado Wessel e a Marinha do Brasil. O Prêmio é considerado o maior do país em ciência e tecnologia e este ano destacou a categoria Ciências da Vida. Outros pesquisadores e instituições nacionais foram contemplados com os títulos de Pesquisador Emérito e Menções Especiais de Agradecimentos. A cerimônia aconteceu no dia 23 de setembro. Vogt destaca-se como um dos idealizadores e fundadores do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor), que viria a se tornar um dos principais Centros de Pesquisa em Divulgação Científica e Cultural nacionais, Vogt foi Reitor da Unicamp e presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e da Universidade Virtual do Estado de São Paulo, a Univesp. Atualmente, é professor emérito da Unicamp e atua como presidente do Conselho Científico e Cultural do Instituto de Estudos Avançados (Idea), unidade que promove pesquisas interdisciplinares. Em entrevista, o pesquisador fala sobre os desafios atuais para a ciência e divulgação científica e enfatiza a importância da homenagem concedida pelo CNPq: Que tipo de formação um comunicador de ciência deve ter? Acredito que a resposta está embutida na estruturação dos cursos que temos no Labjor. Primeiro, temos um conjunto de disciplinas que permitem ao estudante ingressar nesse universo do conhecimento no que diz respeito às condições gerais do bom funcionamento do jornalismo e da divulgação científica. Depois, nós temos um conjunto de disciplinas que estão voltadas para a formação específica do estudante de pós-graduação, voltadas para sua formação prática, gerando incentivo para que ele produza, escreva, faça o exercício da divulgação. Inclusive, nesse sentido, uma das motivações para criar a revista ComCiência partiu da intenção de que ela funcionasse como um laboratório para a formação dos jovens divulgadores de ciência. Por fim, há também um conjunto de disciplinas eletivas que complementam essa formação geral, necessária para o exercício da atividade de jornalismo e divulgação científica. Então, penso que a formação tem a ver com o exercício e a prática efetiva da divulgação e com uma formação capaz de incorporar o conhecimento que o estudante traz de sua graduação e que o permita desenvolver uma visão crítica de todo o processo de funcionamento da ciência e de sua relação com a sociedade.
“Temos fenômenos sazonais, conjunturais, como a epidemia de covid19, que estão relacionados à uma maneira de ser, a um modo de produção e consumo que se não forem mudados urgentemente nos farão enfrentar um paredão de concreto que não conseguiremos atravessar”.
Estamos enfrentando no Brasil diversas crises simultâneas (ambiental, sanitária, econômica, política, da ciência, etc) que têm sido inclusive, temas dos eventos que o Idea tem organizado. Todas essas crises se relacionam com a ciência em algum nível. Como o senhor acredita que deve ser a reação da comunidade científica em relação a essas crises? O que podemos fazer para superar todas esses percalços ao mesmo tempo? Temos que continuar aprofundando ações no sentido da produção do conhecimento e do desenvolvimento de uma visão crítica, autônoma e relativamente independente àquilo que se coloca como desafio às sociedades humanas. Estamos vivendo um momento delicado no plano geral no mundo todo, em virtude de um processo de acentuado reconhecimento das ideologias de extrema direita – com características que beiram famigerados regimes autoritários como o nazismo e o fascismo. Nesse cenário, temos dois grandes desafios estruturais permanentes: de um lado, há a questão ambiental, que é fundamental, e o negacionismo relativo às mudanças climáticas. Isso é de fato um absurdo que pode levar a uma catástrofe. Do outro lado, há um perigo que está sempre presente, embora não se manifeste tão claramente, que é o risco nuclear, dado à capacidade armamentista das nações e à loucura que os governantes na linha dessa ideologia de que ‘a morte e a destruição são objetivos que devem ser estabelecidos pela sociedade’. Sobre tudo isso, há ainda essa questão conjuntural: a covid19. Eu diria que essa é também uma questão estrutural no sentido de que ela está relacionada com o modo de produção e consumo que nós fomos elegendo para as sociedades contemporâneas. Há livros importantes que tratam sobre esse tema e mostram como a questão das epidemias está relacionada ao modelo de sociedade que fomos organizando, isso é, o modo de produção agrícola que foi fixado, a concentração da população em grandes centros urbanos (basta ver o Brasil, onde 85% da população hoje está em centros urbanos), etc. Então temos fenômenos sazonais, conjunturais, como a epidemia de covid19, que estão relacionados à uma maneira de ser, a um modo de produção e consumo que se não forem mudados urgentemente nos farão enfrentar um paredão de concreto que não conseguiremos atravessar. O Brasil infelizmente está em uma situação delicadíssima, porque está enfrentando essa crise sanitária com manifestações terríveis, uma crise econômica que é avassaladora e uma crise política por falta total de equilíbrio dos dirigentes e governantes. Estamos em uma situação delicada que nos leva à necessidade de manter uma posição de firmeza com relação ao papel da ciência e à função do conhecimento no mundo contemporâneo como aquele caminho que pode se opor efetivamente a essas loucuras que o obscurantismo vai produzindo e a tudo aquilo que esse obscurantismo pode causar ao equilíbrio e à vida no planeta. Um dos problemas que a ciência e os cientistas têm lidado é o movimento de negacionismo científico. O senhor diria que ele está crescendo, que foi sempre assim, ou é um fenômeno cíclico? Os movimentos contra o conhecimento e contra a ciência, isso é claro, apesar de terem momentos de maior ou menor expressão, sempre estão presentes. Acontece que há momentos em que isso estabelece mecanismos que vão apontando para uma ação que congrega hostes que, de repente, passam a apontar para o obscurantismo como um caminho que poderia levar a um bom resultado para a humanidade. Estamos vivendo um momento como esse. Temos que resistir. Estamos resistindo e vamos resistir. As universidades, a imprensa, as escolas e os intelectuais, todos nós fazemos parte de um grupo que tem que estar cada vez mais solidário com o propósito de não nos deixar levar por essas ‘forças do mal’. Em relação a atos governamentais que visam reduzir ainda mais os orçamentos das Universidades, contrariando a autonomia delas, como no caso do PL 529 em tramitação na ALESP, como o senhor acredita que deva ser a reação da comunidade científica? Temos que resistir. A comunidade está respondendo, se mobilizando. Há o envio de cartas aos governadores e deputados e manifestações individuais e coletivas de associações e organizações, por exemplo. Tudo isso vem acontecendo, mas ainda estão com o propósito de aprovar isso. Essa semana, até onde temos informação, o Projeto de Lei estaria em andamento para discussões e eventualmente já apreciar o parecer do relator – queimando algumas etapas do processo. Mas é algo que não pode acontecer. Nós sabemos que se eles fizerem isso, mesmo na forma mais atenuada – só recolhendo as poupanças que as universidades e a Fapesp foram fazendo como caixa para poder, inclusive, enfrentar situações complicadas de maior carência – se entrarem, eles se instalam dentro de casa porque o movimento é vampiresco. Não podemos, em nome da autonomia, da pesquisa, da produção do conhecimento e do papel que a ciência tem na sociedade, tudo isso requer essa firmeza de posição que temos acompanhado na comunidade científica. Como a divulgação científica pode ser aliada dessas ações? Uma das coisas sobre a qual sempre falamos é essa necessidade de que a sociedade como um todo esteja em condições de participar criticamente do processo de desenvolvimento científico e tecnológico. Isso não quer dizer que queremos transformar todo mundo em cientistas, mas quer dizer que a ciência precisa que a sociedade tenha uma visão crítica do processo de desenvolvimento para participar da tomadas de decisões que ditam o rumo da ciência nacional. A sociedade deve ser capacitada em um nível de conhecimento que não é do especialista de laboratório, mas que dê a ela uma visão geral dos fundamentos científicos, do funcionamento, das metodologias, dos objetivos e da relevância dos trabalhos, para que, desse modo, ela seja um ator crítico do processo. Nesse sentido, a divulgação científica permite que a ciência chegue a toda a sociedade de forma que estabeleçamos uma relação entre ciência e sociedade com os objetivos de: 1) transformar conhecimento em riqueza e vice-versa; 2) promover o desenvolvimento científico e tecnológico com um compromisso de natureza ecológica e 3) que tudo isso se faça com responsabilidade social no que diz respeito a formação do homem. O conjunto desses princípios podem auxiliar no enfrentamento dos desafios que temos pela frente.
“Momentos como esse servem não só para que vejamos nossos trabalhos reconhecidos, mas também funcionam como referência para que novos pesquisadores e produtores de conhecimento trilhem um caminho como esse”.
O título de Pesquisador Emérito do CNPq 2020 é uma honraria muito importante. O que significa para o senhor o recebimento dessa homenagem, principalmente considerando o cenário nacional atual? É uma satisfação, uma alegria enorme. Algo que certamente tem a ver com o papel importante do CNPq como agência de financiamento de pesquisa nacional há 70 anos. É uma alegria estar ao lado de outros colegas que estarão recebendo o título de Pesquisador Emérito, mesmo que virtualmente. Esse tipo de reconhecimento é importante em qualquer situação, mas é claro que no cenário atual talvez a expressão seja mais enfática, mais acentuada. Momentos como esse servem não só para que vejamos nossos trabalhos reconhecidos, mas também funcionam como referência para que novos pesquisadores e produtores de conhecimento trilhem um caminho como esse. O senhor já recebeu vários outros títulos e prêmios ao longo da sua carreira em reconhecimento às suas contribuições à ciência e à política científica do Estado de São Paulo, atuando na Unicamp e na FAPESP. Teria algum prêmio ou honraria que o senhor ainda sonha em receber, ter o reconhecimento em alguma instância, que ainda não tenha acontecido? Muitos, mas nenhum em especial. As coisas foram acontecendo ao longo da carreira e esse reconhecimento é importante. São situações sem as quais minha trajetória não teria sido a mesma.

Fonte: Labjor

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