Sexta-feira, 11 de dezembro de 2020 - Por Bianca Bosso (Labjor/Nudecri)
Pesquisa identifica impacto do isolamento social no consumo de alimentos
O estudo foi conduzido por um grupo de pesquisadores do NEPA (Cocen/Unicamp) e segue agora para mais uma etapa de análises.
Pesquisa identifica impacto do isolamento social no consumo de alimentos
Uma pesquisa desenvolvida no Núcleo de Estudos e Pesquisas em Alimentação (NEPA), unidade gerida pela Coordenadoria de Centros e Núcleos Interdisciplinares de Pesquisa da Unicamp (Cocen/Unicamp), busca explicar como o isolamento social imposto como medida para conter a disseminação do vírus SARS-COV-2, causador da pandemia de covid-19, afetou a percepção e os hábitos de consumo de alimentos no Brasil. A primeira coleta de dados foi realizada através de um questionário online entre maio e junho e indica que novos cuidados e hábitos passaram a fazer parte da rotina alimentar da população neste período. O estudo liderado pela engenheira de alimentos Alline Tribst e pela nutricionista Larissa Galastri Baraldi, ambas filiadas ao NEPA, questionou quase cinco mil brasileiros a fim de entender quais foram os principais impactos em termos de consumo e percepção alimentar durante o isolamento. Em entrevista, Tribst explica as principais constatações do estudo e fala sobre os próximos passos a serem tomados.
Desde o início da pandemia, os aplicativos de entrega investiram em estrutura para oferecer "delivery de supermercado". Os consumidores aderiram a esse serviço, além das entregas de fast-food tradicional, ou preferiram continuar fazendo as compras do mês pessoalmente?
Foi observado que não só os aplicativos de entrega se organizaram para fazer delivery de mercado, mas também os próprios mercados criaram e intensificaram mecanismos próprios ou terceirizados para realizar pedidos e entregas. Nossos resultados mostraram que cerca de 30% das pessoas aumentaram o uso deste tipo de serviço (delivery) e 20% o uso de sistemas de pague e retire. Cerca de 60% dos participantes declararam que reduziram as idas ao mercado e padarias, o que sugere que, quem está indo presencialmente realizar as compras tem feito isso de forma menos frequente. É provável que as pessoas estejam organizando melhor as idas ao mercado (pensando em quais itens precisam não apenas em muito curto prazo).
O hábito de higienizar embalagens e alimentos foi inserido no cotidiano da população como medida preventiva? Se sim, vocês acreditam que isso tende a permanecer assim após a pandemia?
Foi. 80% dos participantes declararam estar higienizando as embalagens e superfícies dos alimentos comprados. É possível que alguns hábitos de maior higiene sejam incorporados na rotina dos brasileiros, mas é cedo para dizer, uma vez que não se trata de algo que antes era rotineiro. É provável que a continuação da pesquisa que realizamos quando o Brasil atingiu os menores números de óbitos diários nos dê um indicativo mais claro de se estes hábitos serão permanentes ou não.
Os entrevistados declararam maior cuidado na escolha e preparo dos alimentos impulsionados pela pandemia?
Sim. Pouco mais de 70% declararam ter medo (pelo menos parcialmente) de contrair covid pelos alimentos, o que explica o alto percentual de pessoas higienizando a superfície de produtos e também que cerca de 50% tem algum medo de consumir comida preparada fora de casa. Também foi observado que 80% dos participantes concordaram totalmente que a imunidade está vinculada a uma boa qualidade de alimentação. Assim, a maioria dos participantes mudou de atitude em relação à escolha e cuidado com os alimentos como forma de minimizar o risco de contrair covid. Por outro lado, também verificamos que um percentual maior de pessoas que não estavam isoladas tinha, de forma geral, menos medo de contrair covid pelos alimentos comparado às pessoas que estavam isoladas, o que se explica pelos diferentes níveis de exposição.
O que foi mais impactado em relação ao consumo diário? A que isso pode se relacionar?
Nossos resultados mostraram que, de forma geral, a maioria das pessoas que participou da pesquisa não tinha tido uma alteração muito grande no padrão de consumo de alimentos no momento em que a pesquisa foi realizada (76%). Entre os participantes restantes, foi observada uma melhoria no padrão de consumo (21% dos participantes), com aumento de frutas, legumes e verduras. Por outro lado, os 13% restantes apresentaram piora nos aspectos nutricionais dos alimentos consumidos, com aumento da ingestão de bebidas açucaradas, doces e snacks. Comparando os grupos que apresentaram melhora e piora do padrão alimentar é possível dizer que aqueles que melhoraram a alimentação são pessoas que tem habilidades culinárias, estão cozinhando mais, não se sentem sobrecarregadas e recebem ajuda de outros moradores da residência nas atividades domésticas e no preparo dos alimentos. Já quem apresentou piora no padrão alimentar normalmente tem menos medo de contrair covid pelos alimentos, acredita que produtos industrializados são mais seguros e não se destacaram por receber mais ajuda nas atividades domésticas. Além disso, observamos que pessoas que melhoraram o padrão alimentar apresentam mais sentimentos positivos (fé, esperança, confiança), enquanto que aquelas que pioraram o padrão tinham mais sentimentos negativos como medo, exaustão e ansiedade. De forma geral, o que podemos dizer é que a pandemia mudou muito a rotina das pessoas. Para aquelas casas nas quais foi possível realizar uma organização adequada do tempo, com aumento do tempo dedicado à alimentação sem que isso gerasse uma sobrecarga nos indivíduos, foi possível melhorar a qualidade da alimentação. Por outro lado, lares onde as pessoas à piora da sua qualidade.
"Observamos que pessoas que melhoraram o padrão alimentar apresentam mais sentimentos positivos (fé, esperança, confiança), enquanto que aquelas que pioraram o padrão tinham mais sentimentos negativos como medo, exaustão e ansiedade."
Isto tudo, claro, dentro da realidade do público de nossa pesquisa (caracterizado por ser de maioria de pessoas com graduação/ pós-graduação e que apresentou um baixíssimo percentual de participantes com indicativo de insegurança alimentar, ou seja, com risco de não ter acesso a uma alimentação adequada). É certo que, para pessoas menos favorecidas economicamente, o poder de compra de diferentes alimentos terá também um grande impacto naquilo que está sendo consumido.
Nota-se que o excesso de tarefas influenciou na alimentação da população durante a pandemia? Isso pode se relacionar com o aumento do consumo de fast food declarado por uma parcela dos entrevistados?
Os resultados mostraram que as pessoas que se percebem com excesso de tarefas tiveram um aumento de aproximadamente 40% no consumo de delivery de fast-food e 34% no consumo de delivery de comida pronta, contra 25 e 18%, respectivamente, para as pessoas que não estão com excesso de tarefas.
Qual foi a constatação mais surpreendente do estudo?
Para nós, a constatação mais impressionante foi a relação entre qualidade da alimentação e sentimentos pessoais. Apesar de ser algo descrito na literatura, observar isto na prática, no contexto da pandemia, foi bastante surpreendente. Especialmente porque nossa coleta de dados foi realizada no início da pandemia, o que mostra o potencial enorme destes sentimentos para rapidamente modificar o padrão da alimentação.
Quais foram as maiores dificuldades na execução e análise do estudo?
A maior dificuldade do estudo foi abranger um público diverso – homens, pessoas das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, e de diferentes faixas de renda. Isso se explica pela forma como o estudo pôde ser realizado (distribuição do questionário de forma online) em função da falta de recursos específicos e da situação imposta de distanciamento social. Além disso, em função deste método de coleta de dados, foi necessário nos atermos a frequência de consumo, o que não permitiu um maior aprofundamento/precisão na determinação da intensidade da mudança de padrão alimentar causado pela pandemia.
Quais os próximos passos da pesquisa?
Estamos iniciando a preparação do segundo artigo e fazendo uma segunda coleta de dados de uma subamostra dos participantes, para entender se as mudanças no padrão alimentar verificadas no início da pandemia foram permanentes ou se alteraram ao longo dos meses com a redução da rigidez das medidas de isolamento aplicadas. Voltar
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