Sábado, 08 de fevereiro de 2121 - Por Bianca Bosso (Labjor/Nudecri)
Alpina Begossi: vida e carreira de uma das pesquisadoras mais influentes do mundo
A ecóloga filiada ao NEPA (COCEN) conta como sua paixão pela natureza e curiosidade a impulsionaram até aqui.
Eleita uma das pesquisadoras mais influentes do mundo pelo Journal Plos Biology (outubro de 2020), a doutora em Ecologia Alpina Begossi apaixonou-se pela biologia ainda durante o ensino médio: “quando lia notícias ambientais ou ecológicas em revistas ou jornais, procurava por uma escolha que integrasse uma profissão e a busca por um mundo melhor”, conta a pesquisadora. No artigo autobiográfico “The river and the sea: fieldwork in human ecology and ethnobiology”, Alpina permeia momentos e experiências que fizeram parte de sua formação como ecóloga e etnobióloga. Ao referir-se à decisão inicial de ingressar na área que atua há mais de 30 anos, Begossi destaca sua curiosidade e interesse em aprender sobre a natureza: “como se um dínamo estivesse dentro de mim, fui impulsionada a viajar através do Brasil para aprender sobre diversidade biológica e cultural [tradução livre]”. Ao longo de sua carreira, além de suas atividades de pesquisa e ensino, Alpina participou da fundação (2006) do Fisheries and Food Institute, do qual hoje é Diretora Executiva. Além disso, foi Presidente da Society for Human Ecology (USA) de 2006 a 2007, vice-coordenadora em dois núcleos de pesquisa da UNICAMP e coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Alimentação (NEPA).
Alpina Begossi (à esq.) recebeu o prêmio de Reconhecimento Acadêmico para Pesquisadores da Carreira PQ. A entrega foi feita pela Coordenadora da Cocen, Ana Carolina Maciel (Foto: Antonio Scarpinetti, 2017)
Em entrevista, Alpina destaca momentos e reflexões que marcaram sua vida e carreira.
Gostaria de saber um pouco sobre sua história: Como conheceu a área que atua hoje? De fato, sendo bem simples, segui meu instinto. Fui seguindo meus sonhos. Minha decisão em fazer ecologia (ecologia humana) veio após uma viagem ao Rio Araguaia em 1978, com amigos da faculdade (UFRJ, Biologia, Ecologia - Bacharelado). O rio, os peixes e a população local me fascinaram. Sou amante da água, vivi em frente ao mar... Até chegar à Campinas em 1981, para o mestrado (minhas pesquisas são entre mares, rios, peixes e pescadores). Quando decidiu se tornar pesquisadora? Sempre me interessei mais pela pesquisa do que pelo ensino. Apesar de estarem relacionados, sempre tive interesse em compreender a natureza e as pessoas na natureza; desse modo, ao optar pela pesquisa, poderia estar mais em campo, coletando dados dentro das realidades que me interessavam. Meu trabalho na Pós-Graduação sempre esteve associado a projetos de pesquisa, participando dessa forma também no ensino. Após o doutorado (Universidade da Califórnia, Davis, EUA), tentei morar de novo no Rio e fui para UFRJ com bolsa CNPq recém-doutora. Entretanto, tive a oportunidade de iniciar uma carreira de pesquisa na UNICAMP através de um projeto em ecologia humana em Puruba/Ubatuba, SP.
“Fui ativa no Movimento Estudantil (1977-1981). As leituras desta época sobre economia política foram muito frutíferas para adquirir conhecimento e associar ideias de disciplinas diferentes, contribuindo para a interdisciplinaridade que enriquece e torna fascinantes as pesquisas em ecologia humana”
Quem foram/são suas inspirações? As inspirações provêm de várias fontes: o trabalho de minha mãe, que girava entre história, antropologia e arte; a riqueza da fase do movimento estudantil e a vontade de integrar a ciência a um mundo melhor. Sem dúvida, tenho na ecologia evolutiva, ecologia cultural e economia ecológica a inspiração de diversos autores que possibilitaram conceitos e métodos integrados à pesquisa básica e aplicada em ecologia humana. Qual foi (ou quais foram) o(s) momento(s) mais marcante(s) ao longo de sua carreira? Há vários momentos marcantes. Na pesquisa de campo, entrar no mundo dos pescadores é como poder entrar em outro mundo, muito particular. Percorrer os rios da Amazônia (ou nossas ilhas e mares) é instrumento rico e interessante no estudo sobre a natureza, extração e populações locais. Além disso, admirar em cada viagem a beleza da natureza e suas intrigantes interações. Ao longo da carreira, são momentos marcantes o reconhecimento da Society for Human Ecology ao meu trabalho, seja na honraria de 2000 ou na premiação do livro Current Trends in Human Ecology (2009, organizado em conjunto com Priscila F. M. Lopes), em 2011 (Young Book Awards in Human Ecology). Além disso, a oportunidade de colaborar com tantas pessoas interessantes em países como Austrália, Espanha, Estados Unidos, França, Canadá, Croácia, Cuba, dentre outros, ou ainda conhecer pescadores de outros países, como Alasca, Filipinas, Noruega, e outros, foram momentos que me marcaram muito.
“E então, o rio. O rio me afetou profundamente. Ele me fez sonhar e imaginar como as pessoas viviam às suas margens [tradução livre]” - Alpina Begossi em “ The river and the sea: fieldwork in human ecology and ethnobiology”, em referência à sua viagem para o Rio Araguaia em 1978.
Em algum momento, o fato de ser mulher foi motivo de dificuldade/preconceito no ambiente de trabalho? Sim. Tive essa percepção em particular quando cheguei do Rio para o mestrado em Campinas, me senti em um ambiente provinciano, em que a vida das pessoas era compartilhada em excesso, sem privacidade. Senti preconceitos no ambiente acadêmico, sim. Na carreira acadêmica no Brasil há preconceitos com relação à mulher: alguns de forma mais velada ou tangenciais, outros mais diretos, mas que de certa forma afetam a carreira da mulher no mundo acadêmico, bem como em seu dia-a-dia, Quando a mulher é competente em seu trabalho, é comum estar associada a essa competência ou a essa mulher algum defeito: ou seja, quando colegas atestam a sua competência, em seguida pode seguir alguma observação negativa. É comum, são observações que muitas vezes são expressas através de brincadeiras ou fofocas, ou simplesmente através de uma opinião. Essa associação não parece ser tão comum sobre colegas do mundo masculino. De formas indiretas, a mulher pesquisadora acaba por obter menos promoções, o que, claro, refletirá em seu salário. Infelizmente é uma cultura machista aquela em que vivemos no Brasil, onde as mulheres são diminuídas em diversos e inúmeros setores. O mundo acadêmico brasileiro encontra-se inserido em sua cultura. “Para conquistar respeito acadêmico, a mulher deve muitas vezes provar uma competência muito maior que a de seu colega homem” Qual é a sensação de estar entre os melhores do mundo? A senhora considera que é uma pesquisadora influente mais pelo número de citações ou pelo contato com as populações que fazem parte/parcerias com suas pesquisas? Estando em uma área interdisciplinar (ecologia humana e derivados, como etnobiologia) e que ainda engatinhava no Brasil, sim, esse resultado me realizou de certa forma. Especialmente porque tanto a Biologia, quanto as Ciências Sociais, no Brasil, ou ignoravam essas áreas ou se mostravam muito reticentes. No Brasil, foi uma luta e um "limbo". Publiquei especialmente fora do Brasil, em veículos internacionais e sempre tive muitas colaborações internacionais. Meu reconhecimento profissional foi primeiro internacional e depois nacional. Infelizmente, as populações locais têm pouco acesso ao nosso trabalho: procuramos divulgá-lo através de livros nacionais ou ainda folhetos e folders. Muitos pescadores do Brasil são analfabetos ou analfabetos funcionais. É a nossa infeliz realidade. Nossos livros e trabalhos também, em sua maioria, são ignorados pelo governo (órgãos ambientais). As relações nessa esfera (pesquisa-populações locais) foram sempre conturbadas. Governos no Brasil, em geral, se colocam de forma autoritária, quando não desumana, com populações pobres e pescadores artesanais.
Além da sua área de pesquisa, quais são seus interesses? Vários... Amo surfar, bodyboard e longboard. Agora a long ficou mais pesada e estou só com bodyboard. Surfo desde a infância no Rio. Adoro música, toquei violão na juventude e voltei a tocar guitarra e cavaquinho. Adoro ler sobre diversos temas, além daqueles do trabalho (biologia, ecologia e antropologia): literatura, filosofia, história, economia política. Na literatura, os russos me fascinam, Tchekhov, Gogol, Puchkin, etc. Finalmente, adoro a arte, que atualmente integro ao meu trabalho (arte como origem de informações pretéritas sobre a distribuição geográfica de peixes ou sobre a sua abundância).
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