Terça-feira, 23 de fevereiro de 2021 - Por Bianca Bosso (Labjor/Nudecri) - Edição: Marina Gomes (Labjor)
Teresa Atvars: pioneirismo feminino e equidade de gênero na Unicamp
Primeira mulher a assumir a Coordenadoria Geral da Unicamp e precursora de sua área de estudos no Brasil, Atvars destaca aspectos importantes sobre a ocupação de postos de chefia por mulheres.
Professora Titular do Instituto de Química e Coordenadora Geral da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Teresa Atvars começou a trilhar seus caminhos em cargos de chefia décadas antes de ser a primeira mulher a assumir a Coordenação Geral da Unicamp, em 2017. A docente conta que desde sua pós-graduação, desempenha papéis de gestão que vão além da pesquisa e ensino: "fui a primeira mulher chefe de Departamento no Instituto de Química da Unicamp ainda no doutorado", explica. A partir de então, sua carreira ascendeu e seu pioneirismo excedeu ainda outras barreiras. Natural de São Carlos, ela é uma das precursoras na implantação da área de estudos de polímeros fotoluminescentes no Brasil e foi a primeira mulher a ocupar a Pró-Reitoria de Desenvolvimento da Unicamp, além de outras inúmeras conquistas e homenagens que lhe renderam o título de Cidadã Campineira, concedido em 2019. Em entrevista, Atvars discute os avanços em relação à equidade de gênero na Universidade e destaca que ainda há um longo caminho a ser percorrido a fim de garantir a ascensão e permanência de mulheres em postos de chefia.
Teresa Atvars na década de 70. Foto: SIARQ/UNICAMP
Como vê a questão da equidade de gênero hoje na Unicamp? Longe do ideal, mas melhorou muito ao longo do tempo. Só o fato de haver um concurso público para o preenchimento de cargo tanto de funcionários quanto de professores já colocou as mulheres em um pé de igualdade que é absolutamente impressionante. No caso do alunado também, com vestibular. Nesse aspecto, de igualdade de oportunidade, melhorou muito. No caso da progressão da carreira e ocupação de postos-chave na Universidade, ainda não percorremos o caminho todo. Algumas de nossas faculdades têm mais de 50 anos e nunca tiveram uma diretora mulher. Nunca tivemos uma mulher reitora. Há um caminho a percorrer que poderia ter sido um pouco mais acelerado. Isso é mais forte em algumas áreas e menos forte em outras, mas poderíamos ter avançado mais nos postos de comando. Ao longo de sua carreira você foi pioneira em várias frentes. O que essas conquistas significam? Fui a primeira mulher chefe de departamento no Instituto de Química. Depois tive alguns cargos administrativos dentro do instituto, fui coordenadora de pós-graduação, logo na sequência da chefia de Departamento (que é um cargo sempre muito importante porque a Unicamp tem a característica de ter uma pós-graduação muito forte, ter notas muito boas na Capes, ser um centro de excelência). Depois me tornei assessora na Pró-reitoria de graduação. Ao longo dessa trajetória fui aprendendo, me qualificando para a função de gestão sem deixar a docência e a pesquisa. Fui conhecendo a universidade e aprendendo. Em 2005 fui a primeira mulher pró-reitora de pós-graduação, e acho que isso decorreu do fato de eu ter sempre uma atividade de representação de docência, conselho universitário, congregação. Fui a primeira mulher pró-reitora da Unicamp (isso em 2005). Fui pró-reitora de Desenvolvimento Universitário, que é uma função muito pesada, e fui a primeira mulher a ocupar esse cargo. Ser coordenadora geral da Universidade (sou a primeira) decorre dessa trajetória que teve sempre um lado administrativo, gerencial, sem deixar de lado a docência no Instituto de Química, mantendo as atividades de pesquisa e de laboratório.
"Eu gostaria de ver um dia uma chapa formada só por mulheres...Você consegue imaginar uma disputa para reitor que tenha só mulheres?"
A ocupação desses cargos de gestão no alto escalão por mulheres abre portas para outras trilharem caminhos semelhantes?  Eu me lembro que quando tomei posse na Pró-reitoria de pós-graduação havia vários elogios por ser a primeira mulher, e eu sempre dizia que o importante não é ser a primeira, é não ser a última. Acho que abre portas, sim. Primeiro porque outras mulheres passam a enxergar essa possibilidade e segundo porque a universidade passa a ver o que as mulheres podem ser. Claro que eu gostaria que a universidade não tivesse que validar o que as mulheres podem ser. De toda forma, até agora, nas funções que eu ocupei nunca fui a última, então estou satisfeita nesse sentido. Quando fui convidada para a Pró-reitoria de pós-graduação (2005-2009), eu não só era a única mulher pró-reitora como era a única mulher na administração superior. Eu dizia que gostaria de ver um dia uma chapa formada só por mulheres. Você consegue enxergar uma disputa para reitor que tenha só mulheres? Mas a gente naturalizou ter uma chapa só de homens. Temos um longo caminho. Acho que nós mulheres deveríamos ambicionar mais. Não há por que a Unicamp não ter uma reitora. Temos mulheres qualificadas e experientes, e precisamos avançar.
Teresa Atvars, Coordenadora Geral da Unicamp. Foto: Divulgação Cocen.
Percebe alguma diferença entre o número de mulheres estudantes na sua área em comparação à sua época de estudante? Há mais mulheres na graduação e na pós, ainda que eu não possa quantificar numericamente. É difícil comparar universidades nesse aspecto, porque é necessário o mesmo perfil dos cursos para ter uma comparação adequada. E as sociedades científicas estão fazendo alguns trabalhos nessa direção, de estimular o ingresso de mulheres todas as áreas.  Qual foi o momento mais marcante na sua carreira? Tenho dois momentos que para mim são muito gratificantes: o primeiro foi ter sido a primeira mulher no Instituto de Química a receber o Prêmio Zeferino Vaz. Para mim foi muito emblemático porque a comunidade do meu Instituto me reconhecia como uma liderança científica e acadêmica. E ter sido a primeira mulher a receber isso foi muito importante. O segundo foi ter sido a primeira mulher pró-reitora, porque eu vi a abertura das possibilidades da mulher na Unicamp em ter uma função com grande visibilidade – como é a pós-graduação da Unicamp. Eu diria que esses dois marcos foram muito importantes. Claro que ser coordenadora geral é uma honra, e seria um terceiro ponto. O que diria para mulheres que gostariam de ingressar na carreira acadêmica e/ou almejam postos de liderança? Para quem está na graduação, busque os assuntos que você gosta, mas sem abandonar os outros, porque em algum momento você pode precisar. Segundo: se sacrifique, porque você vai colher na frente os frutos. Se dedique. Não deixe, obviamente, as relações sociais, mas se dedique. Lembre-se sempre: a universidade é pública e portanto ela não nos pertence. E ao não nos pertencer, nós devemos a ela uma resposta qualitativa de nos formarmos da melhor forma possível e fazer nosso trabalho da melhor maneira possível. Acho que essa é a mensagem com a qual eu conduzi minha carreira inteira e gostaria de deixar como mensagem para todo mundo. A universidade não nos pertence, estamos nela cumprindo um papel.
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