Pesquisa revela que brasileiro gosta de ciência, mas sabe pouco sobre ela

Levantamento publicado em livro demostra que 61% dos entrevistados têm interesse pelo tema


Por BRUNO MORAES, LUANNE CAIRES E HENRIQUE FONTES (LABJOR) | ESPECIAL PARA O JU
25/09/2017

A s últimas pesquisas de percepção social da ciência e da tecnologia realizadas no Brasil revelaram grande interesse da população pelo tema. Seus resultados derrubam as teses correntes nos meios científicos, educacionais e midiáticos de que os brasileiros não se interessam por essas áreas. No entanto, o elevado interesse não se reflete em grande conhecimento e informação sobre a temática, já que 87% dos entrevistados não souberam informar o nome de nenhuma instituição científica do país, enquanto 94% deles não conhecem o nome de nenhum cientista brasileiro.

A enquete, realizada em 2015 pelo Centro de Gestão em Estudos Estratégicos (CCGE) e pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), acaba de ser publicada em livro. No estudo, 61% dos entrevistados se declaram interessados ou muito interessados pelo tema, índice superior ao demonstrado para esportes (56%), arte e cultura (57%), e política (28%). Dentre os assuntos listados na enquete, o interesse em ciência e tecnologia perde apenas para meio ambiente (78%), medicina e saúde (78%), religião (75%) e economia (68%), sendo que os dois primeiros têm forte relação com ciência e tecnologia.

Comparado ao resultado de enquete semelhante realizada em 2010 pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e pelo Museu da Vida (Casa de Oswaldo Cruz/FioCruz), o interesse pelo ciência sofreu ligeira queda (de 65% em 2010 para 61% em 2015). Já a falta de informação permanece alta. Em 2010, 71% dos muito interessados em ciência e tecnologia não souberam informar o nome de nenhuma instituição científica do Brasil e 82% não conheciam o nome de nenhum cientista brasileiro.

Mesmo restringindo a pesquisa a São Paulo, Estado que concentra a maior produção científica do país, o padrão de muito interesse e pouca informação se mantém, como indica pesquisa realizada pelo Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) em parceria com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Entrevistas com esse perfil buscam mensurar interesse, conhecimento e atitudes das pessoas sobre ciência e tecnologia, e são importantes para o entendimento das implicações econômicas, políticas e éticas da forma como a sociedade encara a ciência. Além disso, contribuem para a compreensão de processos relacionados à aceitação ou rejeição de inovações e à escolha de carreiras científicas por jovens, servindo como instrumentos importantes para a formulação de políticas públicas, modelos de popularização científica, sistemas que promovam maior participação de diferentes atores no debate social e novas estratégias de ensino de ciências.

Devido à importância desse tipo de estudo, a Rede Iberoamericana de Indicadores de Ciência e Tecnologia, em conjunto com o Observatório Iberoamericano de Ciência, Tecnologia e Sociedade, lançou em 2015 uma proposta de padronização das técnicas e métodos utilizados para avaliar a percepção social da ciência e da tecnologia. O objetivo dessa proposta é facilitar a comparação entre os estudos e o debate de tendências gerais nos cenários nacional e internacional.

Mas, afinal, onde está o problema?

A baixa procura por informações e notícias relacionadas à ciência no país vai de encontro ao grande interesse brasileiro pela área. Esse fato contraditório nos leva a refletir sobre qual seria o principal obstáculo que impede o público de consumir esse tipo de conteúdo. Ora, se há desejo do povo em se informar sobre o universo das pesquisas, o problema então deve estar nos canais disseminadores da ciência, compostos pelos profissionais de comunicação e a mídia em geral, que não conseguem instigar a população o suficiente a ponto de ela se engajar na área.

Sabemos que as pesquisas científicas têm caráter técnico e acadêmico, e a linguagem precisa ser adaptada para atender ao público não cientista. É aí que entra o papel do jornalista que deve buscar uma linguagem adequada para realizar a divulgação das informações sobre determinado projeto, de forma a despertar a curiosidade do público-alvo e disseminar, de forma simples e atraente, os complexos conceitos científicos envolvidos no trabalho.

Algumas técnicas podem ajudar nesse processo e tornar a leitura mais interessante. Os princípios do jornalismo literário sempre são bem-vindos, tais como as descrições, a construção cena a cena e a humanização dos personagens. Este último é ferramenta fundamental para aproximar o leitor do cientista e possibilitar que o público veja que os pesquisadores também são pessoas “comuns”. Metáforas, analogias e a utilização de recursos gráficos também auxiliam bastante a contar histórias para o público não especializado. Outra maneira de atrair o público para esse tipo de divulgação é deixar claro e dar exemplos de que aquilo que o cientista está desenvolvendo poderá ser aplicado em cenários de nosso dia a dia e nos ajudar em uma série de situações.

Todas essas técnicas permitirão uma divulgação qualificada e atrativa, atingindo uma gama maior de pessoas. Porém, os veículos de comunicação do país também devem fazer sua parte. O espaço destinado para a ciência na mídia, principalmente em emissoras de TV, ainda não é o ideal e só com uma atuação em conjunto entre os produtores de conteúdo e os replicadores desse material começaremos a instalar a ciência com mais eficácia na rotina das pessoas.

Informação desperta a crítica

Até meados da década de 1990, uma das principais ideias a nortear as pesquisas a respeito da compreensão pública da ciência era a de que o chamado “déficit” de conhecimento da população geral em relação a profissionais da área acadêmico-científica resultava em uma população com menor confiança ou apoio ao empreendimento científico. O papel da comunicação de ciência, nesse caso, seria o de diminuir esse déficit, aproximando a população geral do conhecimento derivado de pesquisas e, com isso, aumentando a aceitação pública da ciência.

O que se descobriu desde então, com pesquisas como a do MCTI, é que um maior conhecimento científico não necessariamente resulta em uma atitude mais positiva em relação à ciência e tecnologia: a relação, como qualquer questão social envolvendo diversos fatores, é mais complexa do que se imagina. Segundo o estudo de 2015 do CCGE e do MCTI, em geral os brasileiros têm uma visão positiva e otimista sobre ciência e tecnologia, mas que se torna crítica quando relacionada aos aspectos éticos e políticos, a seu controle social e à comunicação dos riscos existentes em se fazer ciência. Dessa forma, ficam divididos entre a liberdade de pesquisa e a responsabilidade social dos cientistas, afirmando que a ciência e a tecnologia não são capazes, por si só, de resolver todos os problemas.

De fato, mesmo antes de pesquisas ao redor do mundo demonstrarem que uma maior alfabetização científica resulta em opiniões mais diversificadas e, muitas vezes, posicionamentos críticos, já era possível ver indícios desse fenômeno. Os testes nucleares do Projeto Manhattan, nos Estados Unidos, e o lançamento das bombas nucleares resultantes sobre o Japão em 1945 puseram fim a uma era de grande otimismo e ingenuidade na história da ciência e sua relação com a sociedade. Onde antes se encarava — e propagandeava — a ciência como um empreendimento quase invariavelmente positivo, surgia a crescente noção de que, como qualquer empreendimento humano, a ciência pode servir a propósitos e interesses que não necessariamente serão benéficos ou promoverão avanços sociais.

Eles querem ser ouvidos

Segundo a pesquisa realizada pelo CCGE e o MCTI em 2015, os brasileiros julgam importante que a população seja ouvida na tomada de grandes decisões sobre ciência e tecnologia e consideram importante investir nessa área, sendo que 78,1% são favoráveis a aumentar os investimentos.

Esses resultados vão na contramão de medidas recentes adotadas pelo governo federal. Com o início do governo Michel Temer em 2016, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação foi fundido ao Ministério de Comunicações. Em março do ano seguinte, 44% do orçamento previsto para o MCTIC na Lei Orçamentária Anual (LOA) foi contingenciado, reduzindo a verba disponível de R$ 5 bilhões para R$ 2,8 bilhões.

Considerando a correção pela inflação, o valor destinado à ciência e tecnologia no país neste ano é menos que a metade do orçamento disponível em 2010. Esse é o pior cenário em termos financeiros da história, já que o tamanho da comunidade científica nacional mais do que duplicou nos últimos 12 anos. E os cortes não param por aí. A proposta inicial de teto orçamentário para o MCTIC em 2018 é 40% inferior ao orçamento de 2017.

Todas essas medidas foram tomadas sem consulta à população. E as consequências são dramáticas para a ciência nacional, incluindo a saída de pesquisadores brasileiros para instituições do exterior (fenômeno conhecido como “êxodo de cérebros”), o fechamento de instituições científicas por falta de verba para seu funcionamento básico e uma redução tanto em volume quanto em qualidade das publicações por falta de financiamento para pesquisas.

Muita admiração, pouco engajamento

A confiança e a admiração pelos cientistas de uma nação influenciam diretamente o interesse dos jovens pela carreira de pesquisa. Além disso, muitas vezes estão relacionadas a uma população mais atuante na discussão sobre o financiamento, a prática e os resultados da pesquisa desenvolvida em seu território. Sobre essa questão, a mesma pesquisa do Labjor que mostrou que o interesse dos paulistas por ciência não resulta em uma população mais informada, nos apresenta, mais uma vez, um cenário contraditório. Embora os cientistas estejam entre as cinco profissões mais admiradas pela população do Estado de São Paulo (mais de 70% dos entrevistados declararam alguma ou muita admiração por pesquisadores, a sexta profissão mais admirada), esse valor não necessariamente se reflete em um maior engajamento popular com os problemas da pesquisa e de seu financiamento. A profissão de cientista ainda não é reconhecida no país. A carreira não está estabelecida, constituindo-se em grande parte de alunos de pós-graduação que não estão propriamente inseridos no mercado de trabalho.

O cenário atual da ciência e tecnologia no Brasil é crítico e parece, por enquanto, não haver uma solução tão próxima. Mais do que nunca é necessário um esforço conjunto da comunidade científica e dos divulgadores de ciência para transformar o interesse social pelo tema em engajamento para a construção de um cenário melhor no futuro.

Saiba mais

Proposta de padronização dos indicadores de percepção social da ciência e tecnologia: Red Iberoamericana de Indicadores de Ciencia e Tecnología. Manual de Antigua: indicadores de percepción publica de la ciência y la tecnología. 2015. Disponível em: http://www.ricyt.org/files/MAntigua.pdf

Texto publicado no Jornal da Unicamp

http://www.unicamp.br/ju